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  • Amazônia fora do crédito de carbono

    Amazônia fora do crédito de carbono

    A Amazônia brasileira não será beneficiada pelo mercado de crédito de carbono definido no Protocolo de Quioto. Pelo menos não neste primeiro momento, já que ainda não são aceitos projetos para crédito baseado em desmatamento evitado, o que seria o grande trunfo em potencial da região na diminuição do efeito estufa. Apesar de ser, no atual estágio, insuficientes para conter o agravamento da temperatura global, os créditos de carbono são considerados de grande importância para o mundo. Os resultados da primeira fase servirão para ajudar a convencer os países a concordar em diminuir as emissões futuras de gás-carbônico. Acompanhe abaixo entrevista sobre o assunto com o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Philip Fearnside, PhD em ecologia.

    Amazônia a Vista – O que é crédito de carbono?

    Philip Fearnside – Crédito de carbono é a contabilidade de quantas toneladas de carbono (o elemento que, em forma de gás-carbônico provoca o efeito estufa) foram retiradas ou mantidas fora da atmosfera. Sendo que países industrializados que assumiram compromissos sob o Protocolo de Quioto precisam limitar as suas emissões de gases de efeito estufa, ou por medidas domésticas (muitas das quais seriam caras se implementadas em grande escala) ou por compra de créditos de carbono de outros países, por exemplo, por meio do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), criado pelo Protocolo de Quioto para possibilitar projetos em países como o Brasil. O crédito de carbono, portanto, vale dinheiro.

    Amazônia a Vista – Qual o estágio deste mercado no Brasil. Está em vigor desde quando?

    Philip Fearnside – O mercado de carbono está funcionando desde que o Protocolo de Quioto entrou em vigor, em fevereiro deste ano. A principal limitação para possíveis projetos na Amazônia brasileira é o fato que foi decidido em 2001 de que, para o primeiro “Período de Compromisso” (2008-2012), não seriam aceitos projetos para crédito baseado em desmatamento evitado, o que seria o grande trunfo em potencial da Amazônia na mitigação do efeito estufa. Existe uma proposta para contornar isto com uma abertura para permitir projetos iniciados agora de gerar crédito que seria válido no segundo período de compromisso (2013-2017). As negociações sobre o segundo período devem começar no final de novembro deste ano.

    Amazônia a Vista – Como é o funcionamento deste crédito? Qual o benefício para o setor público?

    Philip Fearnside – O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo já está funcionando. No Brasil, é o Ministério de Ciência e Tecnologia que é responsável pelo escritório nacional do MDL que aprova os projetos a serem entregues à sede internacional, que é subordinado a Convenção Quadro sobre Mudança do Clima, em Bonn, Alemanha. Por enquanto os projetos são para atividades como plantar árvores, capturar metano emitido por lixões e aumentar a eficiência do uso da energia (não para desmatamento evitado). Todos estas atividades são compatíveis com os objetivos do setor público, e obviamente ficam mais atraentes para o País quando custeados pelo dinheiro do carbono e não pelos contribuintes brasileiros.

    Amazônia a Vista – E para as empresas privadas. Quantas delas, ou de que setor já estão sendo beneficiadas?

    Philip Fearnside – Por enquanto está apenas iniciando. São empresas para reflorestamento (sobretudo para carvão vegetal para uso em siderurgia), empresas de energia e de aparelhos que usam energia, além de organizações não governamentais interessadas em recuperar a mata atlântica.

    Amazônia a Vista – Quais os países que já estão negociando o crédito com o Brasil?

    Philip Fearnside – Tem projetos em preparação pelo menos de grupos nos EUA e na França. Provavelmente existem outros também.

    Amazônia a Vista – Quanto o mercado de crédito de carbono deve movimentar, em média, por ano no Brasil?

    Philip Fearnside – Isto ainda é uma incógnita. O MDL em geral, ao nível internacional, tem tido um começo lento com a sede internacional, não conseguindo aprovar projetos num ritmo suficiente para atender a demanda para crédito de carbono entre os países europeus. O resultado é uma explosão do preço do crédito de carbono, que já é tão alto que o custo de comprar o crédito de carbono para compensar uma nova usina termelétrica movida a carvão é maior do que o custo do próprio carvão queimado pela usina. Talvez o MDL possa conseguir se agilizar mais no futuro, aumentando o volume de crédito disponível. Obviamente, o preço representa um equilíbrio entre a oferta e a demanda e a quantidade que o Brasil consegue abocanhar depende da capacidade de propor projetos elegíveis.

    Amazônia a Vista – O proprietário rural que manter suas matas, ao invés de fazer o desmatamento, poderá ser beneficiado com o crédito de carbono?

    Philip Fearnside – Futuramente se espera que isto aconteça. Por enquanto, não há como fazer isto por meio do Protocolo de Quioto. Deve-se lembrar que existem também outros mercados de carbono, para países que têm impostos nacionais sobre emissões, para empresas nestes países ou que querem diminuir emissões como medida de propaganda e relações públicas, e para estados e cidades individuais (inclusive nos EUA, país do próprio George Bush que recusou a ratificar o Protocolo de Quioto em 2001).

    Amazônia a Vista – Onde a Amazônia se encaixa neste processo. Quais as vantagens do crédito de carbono para a Amazônia Brasileira?

    Philip Fearnside – A Amazônia brasileira tem uma grande vantagem para futuros programas de diminuição de desmatamento porque existe muita perda de floresta (e emissão) aqui hoje, e porque a quantidade de floresta ainda em pé é grande e portanto, a quantidade de desmatamento evitado poderia ser grande também. Também é muito importante que o grosso do desmatamento na Amazônia é para pastagem, que traz pouco benefício econômico e não é necessário para alimentar a população humana da região. Em outros países tropicais, onde a população passaria fome se não fosse desmatar, a oportunidade para diminuir o desmatamento é muito menor.

    Amazônia a Vista – O meio ambiente e as camadas mais pobres da população serão beneficiados por esse mercado?

    Philip Fearnside – Sim, mas poderia ter sido muito melhor neste sentido. O nível de conhecimento e investimento necessário para conseguir aprovar um projeto de MDL é tanto que indivíduos pobres dificilmente vão conseguir fazer, embora cooperativas deles e ONGs ligadas a eles poderiam vencer estas barreiras. O tipo de projeto também não ficou tão direcionado aos pobres como poderia ter sido. O artigo 12 do Protocolo de Quioto, que criou o MDL em 1997, exige que todos os projetos estejam contribuindo ao “desenvolvimento sustentável”. Isto foi visto na época como uma oportunidade para exigir que os projetos conformassem a padrões uniformes internacionais no que se refere à definição de “desenvolvimento sustentável”, assim barrando projetos com impactos negativos sociais e ambientais. No entanto, nas negociações posteriores ficou decidido que a definição de “desenvolvimento sustentável” ficaria a cargo de cada país, assim efetivamente anulando esta exigência sobre o MDL. Já que cada país decide sobre desenvolvimento sustentável, qualquer projeto entregue pelo escritório nacional do MDL para aprovação da sede da Convenção automaticamente tem a homologação de representar “desenvolvimento sustentável”.

    Amazônia a Vista – O crédito não dará direito aos países desenvolvidos de continuar poluindo?

    Philip Fearnside – O crédito dá ao país comprador o direito de emitir a quantidade correspondente de carbono. No entanto, desde que a contabilidade de carbono seja baseada na realidade, a quantidade de emissão evitada pelo projeto que gerou o crédito vai ser pelo menos igual (e geralmente maior) que a quantidade que o crédito permite ser emitido. Assim, leva a um ganho para o meio ambiente e uma diminuição global da emissão de gases de efeito estufa.

    Amazônia a Vista – Quem é responsável pelo controle deste mercado?

    Philip Fearnside – O mercado é supervisionado pela Convenção Quadro sobre Mudanças do Clima, da Organização das Nações Unidas (UN-FCCC).

    Amazônia a Vista – Os créditos de carbono são mesmo eficazes na redução do efeito estufa?

    Philip Fearnside – Os créditos de carbono na atual fase do Protocolo de Quioto são completamente insuficientes para conter o agravamento do efeito estufa. No entanto, precisa começar fazendo alguma coisa para combater as mudanças catastróficas no clima global que já estão começando a ficar evidentes. As experiências ganhas nesta primeira fase vão ser muito importantes para ajudar a convencer os países a concordarem em diminuir as emissões futuras de uma maneira mais drástica, para ter um efeito substancial sobre a temperatura global. Portanto, os projetos que gerem crédito de carbono hoje têm uma importância muito além do benefício imediato em termos de mitigar o efeito estufa.

  • Guaporé é o maior produtor de tartarugas

    Guaporé é o maior produtor de tartarugas

    Guaporé é o maior produtor de tartarugas

    A cada ano aumenta o número de nascimento de filhotes de quêlônios no Rio Guaporé, um dos maiores produtores destas espécies no Brasil. Em 2003 foi registrado o nascimento de 220 mil filhotes, enquanto que em 2004 este número subiu para 400 mil. O trabalho de fiscalização realizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e por pessoas da comunidade, é apontado como o principal fator de contribuição para o aumento da quantidade dos animais.

    Os quelônios começaram a ser protegidos em 1976, por pessoas da própria comunidade, que se preocuparam com a rápida diminuição do número de animais. Cerca de 10 anos depois, o Ibama assumiu a coordenação do trabalho. No período de agosto a dezembro a equipe de fiscalização monta barracas nas praias onde há o maior número de desova, para proteger os animais adultos, seus ovos e seus filhotes. De acordo com o biólogo Fernando Raeder, responsável pelo projeto, as fêmeas começam a acampar na praia em agosto, para desovar no mês seguinte. Os filhotes começam a nascer somente em novembro. “Montamos as barracas na ilha, para não incomodá-las na praia”, explicou.

    A maior perseguição às tartarugas, segundo Fernando, ocorre na época do acampamento delas. As pessoas procuram os animais e os ovos, tanto para comer, quanto para comercializar. A multa para quem for pego com qualquer uma das espécies é de 500 reais por animal. Além de numerar os ninhos, a equipe de fiscalização conta os filhotes, para ter controle do número de nascimentos.

    Sobrevivência não chega a 50%

    Menos da metade dos filhotes dos quelônios consegue sobreviver. Além da depredação humana, existem os riscos provocados por animais maiores e por outros fatores naturais. O tempo que uma tartaruga leva para chegar a maturidade sexual também contribui para que a espécie continue em extinção. “Uma tartaruga leva no mínimo 10 anos para começar a reproduzir”, disse o biólogo.

    Se não houvesse depredação, segundo o biólogo, existiriam não só mais tartarugas, mas também animais maiores, já que um reptil nunca pára de crescer. Além disso, quanto mais velha, maior a tartaruga fica e quanto maior, mais ela bota. “Ela pode viver e reproduzir por mais de 100 anos”, afirmou.

  • Paradoxo

    Quem diria, hein! Em plena Amazônia eu procuro e não encontro ar puro. Como é possível tamanho contraste, nesta, que é considerada o pulmão do mundo e a maior floresta nativa do planeta? Pois é, tudo tem explicação. É preciso produzir riquezas, alguém precisa ganhar. É necessário reformar os pastos, produzir soja, madeira, equilibrar a balança comercial, etc,.. etc,.. etc,..! Convence? Não sei, mas todo ano é assim, quando chega agosto o ar fica carregado de impurezas e a nossa vida insuportável. Para todos os lados só se vê uma névoa de fumaça provocando inúmeras conseqüências à saúde humana e ao meio ambiente.

    Tudo por causa da atitude irracional do homem…espera aí…irracional… não! Pelo que se saiba todo organismo tem um papel social dentro de sua comunidade, aquilo que os biólogos chamam, cientificamente, de “nicho biótico”, ou seja, cada um dos seres, animais ou vegetais, têm uma função que contribui para a preservação de seu meio, seu habitat. Nesse caso, se os animais são irracionais, as causas da depredação ambiental são as atitudes “racionais” do homem, afinal, animais não derrubam e queimam árvores.

    De acordo com estudo baseado em dados da Agência Espacial Brasileira, que reúne imagens monitoradas por satélites e divulgado numa revista científica norte americana, entre 1995 e 2000, 1,9 milhão de hectares foi devastado, equivalendo a sete campos de futebol por minuto de mata virgem destruída. Outros dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Instituto Ambiental da Amazônia (Ipam), calculam em, no mínimo, U$$102 milhões o custo médio anual dos danos provocados pelo fogo na região Amazônica, incluindo a liberação de milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). Só em Roraima, no ano de 1998, ocasião em que foi registrado o maior incêndio florestal da história do País, o Estado sozinho emitiu entre 36 e 472 milhões de toneladas de CO2.

    Você sabe quanto vale uma vaca? Acredito que sim. E quatro vacas, você sabe? Todo mundo sabe. E quem não sabe, se quiser, descobre rapidinho. É só perguntar no açougue mais próximo. É fácil levantar.

    Agora, responda-me, você sabe qual o espaço de pasto necessário para se criar uma vaca, ou melhor, quatro vacas? Provavelmente não saiba, mas se tiver interesse em saber, creio não ter dificuldade para levantar tal informação. É só perguntar a qualquer pecuarista que ele terá a resposta na ponta da língua, ou seja: 24 mil metros quadrados, ou, o equivalente a 2, 4 hectares, ou se preferir, 1 alqueire.

    Agora, responda-me, se puder, você sabe quantas vidas são extintas em idêntico espaço de floresta nativa para formar o pasto? Acredito que até o mais renomado doutor em ciências biológicas teria dificuldade para precisar, com exatidão, os bilhões de microorganismos, insetos, animais rasteiros, aves, outras espécies animais e vegetais extintos com o fogo de um suposto progresso que atende a interesses de uma elite minoritária.

    Imagine você amarrado ao topo de uma árvore, completamente despido e por baixo, inúmeros ramos secos entrelaçados como uma fogueira, pronta para assá-lo vivo a uma menor fagulha. Imagine sua angústia ao perceber as raízes já em chamas, atingindo pouco a pouco o tronco, as labaredas alimentadas pela casca ressecada da árvore, a cada instante tornando-se mais vivas e ganhando novas formas, formas aterrorizantes, semelhantes a dragões cuspindo fogo. Você olha para os lados e não vê a mínima chance de salvação. E o pior, vai sofrer muito antes de ser tostado, porque tem certeza de que o fim é inevitável e será cruel. E eu acredito! Você vai rever na mente toda sua vida em segundos, como uma fita de vídeo sendo rebubinada, desde de sua remota infância até o fatídico momento, e não vai encontrar um motivo, se quer, que o torne merecedor de tamanho suplício.

    É desta forma que morre o passarinho recém nascido e ainda depenado, sem poder voar, andar, totalmente impotente, sem a menor chance de defesa. É claro que não posso saber o que sente um pássaro em tal situação, mas sendo fácil imaginar um ser humano em posição idêntica, creio ser possível deduzir. O pássaro não tem memória para avaliar se merece ou não esse fim, mas o egoísmo materialista do homem não se importa e o condena a pena capital. Pense! Reflita! Porque se não, o animal extinto de amanhã, pode ser você.

    Messias Pereira é jornalista

    e-mail: [email protected]

  • O povo do vale

    ‘Vocês vão para aquele lado? Então façam o favor de parar numa casa azul, que fica na beira da estrada e avisar a dona da casa que o marido dela fez a cirurgia e passa bem’, diz Seu Bernardo, um dos entrevistados de nossa equipe, ao ser informado sobre nosso próximo destino. Em uma outra ocasião, ouvimos de um jovem: ‘Aquele senhor quer saber se vocês podem dar uma carona prá ele e a senhora dele até Costa Marques?’. Os pedidos de carona são ainda mais freqüentes nas margens do rio. Será que dá para vocês darem uma carona de barco para mim, até a próxima vila? – questiona outro morador. Este tipo de comportamento é comum no Vale do Guaporé, onde nós da equipe Amazônia a vista tivemos o prazer de permanecer durante uma semana.

    As belezas naturais do lugar são incontestáveis, mas o povo também é encantador. Uma gente simples, espontânea e sempre pronta para largar o que está fazendo para atender bem a quem vem de fora, mesmo que esses visitantes sejam curiosos como nós, que querem saber em pouco tempo, tudo sobre uma comunidade centenária como a de Santo Antônio, ou sobre um ambiente rico em biodiversidade como o Vale do Guaporé. Se a entrevista é feita por volta do horário do almoço, não há como deixar o local sem almoçar. Praticamente ao mesmo tempo em que se faz o convite, se joga o anzol no rio e em poucos minutos a refeição está garantida.

    Bem guiados tanto por água quanto por terra, conhecemos lugares e gente encantadores. Longe do toque do celular – já que ainda não há rede em Costa Marques – e da tensão de se produzir notícia com tempo marcado, curtimos um cenário repleto de matas nativas, águas calmas, pássaros e peixes de várias espécies. Os animais que se concentravam nos rios ou em suas margens fugiam da proximidade dos curiosos, enquanto os botos cor-de-rosa, em grupos, pareciam querer pousar para as câmeras. A sensação é indescritível.

    Trabalhar no Vale do Guaporé foi uma experiência única e inesquecível. Foi possível unir, sem grande esforço, o útil ao agradável e fazer um jornalismo significante e verdadeiro.

    Eli Batista é jornalista

    [email protected]

  • Economia verde – a bioeconomia

    A Amazônia tem o encanto e a frescura das telas acabadas de concluir. Conserva a tepidez do último dia da criação. E as impressões digitais do Supremo Criador. Ali, está dispersa por todos os cantos a grandiosidade. Nas águas, na terra e no céu. Não há maior esplendor crepuscular em nenhuma outra parte do mundo. Nem mais ofuscante meio-dia. Nem mais fascinante luar. Ali, o clarão da lua constitui uma alvorada azul, que é transformada em prata, ao toque mágico com a epiderme das águas e flui em torrentes argênteas ao longo das copas farfalhantes. Tudo tem grandeza excepcional. Até o próprio perigo.

    Em 1864, após uma grande seca no Ceará, uma grande leva de brasileiros que estavam passando necessidades naquele estado-irmão descobriram um grande filão – explorar o látex de uma árvore nativa da Amazônia (encontrada apenas nesta floresta tropical), foi utilizada como matéria-prima para confecção de pneus. Estávamos em plena revolução industrial, e na Europa a borracha fazia sucesso. Nossos conterrâneos cearenses fizeram a “América” explorando nossos seringais, enquanto os europeus tentavam em vão cultivar a árvore mágica da Amazônia no clima temperado. Após a primeira grande guerra, depois de várias tentativas, conseguiram domesticar a Hevea brasiliensis em clima tropical de suas colônias no oriente, mais precisamente no Ceilão.

    Em seguida os norte-americanos lograram êxito com a borracha sintética, o que determinou a queda de importância do precioso látex originário de nossas florestas tropicais. Com apenas um produto – a borracha, conseguimos durante algum tempo transformar Manaus e Belém em cidades importantes no roteiro econômico mundial. Neste período surgiram teatros nas duas cidades que faziam inveja em grandes metrópoles européias.

    É certo que vivemos um novo tempo. Passamos a era da Agricultura, deixamos para trás a era industrial, e ingressamos no século da biotecnologia. Que papel a Amazônia terá neste novo momento mundial? E nós, amazônidas, como nos comportaremos diante de uma riqueza ainda não mensurada?

    Segundo a Conservation International, dos 17 países mais ricos em biodiversidade do mundo (entre os quais figuram Estados Unidos, China, Índia, África do Sul, Indonésia, Malásia e Colômbia), o Brasil está em primeiro lugar disparado: detém 23% do total de espécies do planeta. Só para efeito de comparação, a Suíça tem apenas um planta “endêmica” (que só existe lá), a Alemanha, 19 e o México, 3.000. O Brasil tem 20.000, apenas na Amazônia. Apenas 5% da flora mundial foi estudada até hoje e só 1% é utilizada como matéria-prima. A biodiversidade brasileira, portanto, é o cofre de um patrimônio químico inexplorado de remédios, alimentos, fertilizantes, pesticidas, cosméticos, solventes, óleos e energias, além de moléculas, enzimas e genes em número quase infinito.

    A Floresta Amazônica abriga 5.000 espécies de árvores. A Floresta temperada da América do Norte só tem 650 espécies de árvores. A Amazônia pode ter até 300 tipos de árvores por hectare. Uma Floresta temperada não tem mais de 25 tipos de árvores por hectare. O Brasil é o país com a maior diversidade biológica. A Colômbia vem em segundo e a Indonésia em terceiro. Em território brasileiro da Amazônia Legal temos o Vale do Juruá, no Acre (considerada a primeira área em diversidade biológica do planeta), e Cacaulândia, em Rondônia (festejada juntamente com Pakitza e Tambopata, no Peru, como as vice-campeãs em biodiversidade).

    Pouco tem sido feito para que tomemos conhecimento de que somos detentores de um patrimônio natural equivalente a dois (2) trilhões de dólares. Em assim sendo, o Brasil pode se transformar na maior potência mundial da bioeconomia. Um mundo no qual o Brasil tem uma vantagem competitiva inigualável: a riqueza de sua biodiversidade. A variedade de espécies de plantas e animais existentes no ecossistema brasileiro contém um tesouro biológico de genes, moléculas e microorganismos sem paralelo no conjunto das nações do globo. A água, segundo estudiosos de cenários futuros, será o foco de grandes disputas internacionais. Neste quesito também somos abençoados pelo criador por termos a maior bacia fluvial do globo, com possibilidades reais de implantarmos projetos de grande porte de piscicultura em água doce, de fornecimento de água para regiões carentes desse produto.

    Hoje, tanto se fala em venda de crédito de carbono, em projetos que compensem o desgaste ambiental produzido pelo homem no século XX. Em projetos de reflorestamento, de redução de emissão de gases poluentes, em aproveitamento racional do lixo produzido, entre outros. São medidas mitigadoras importantes, necessárias e racionais que se harmonizam com o desenvolvimento sustentável, amparados no trinômio economia, meio ambiente e social. Diante de tantas oportunidades e ameaças os habitantes da Amazônia precisam entender melhor qual o seu papel, o que podem fazer pela sua terra, como podem sobreviver em meio a essa riqueza, de forma digna, permitindo a pesquisa da biodiversidade ainda existente, sem comprometer o futuro das gerações vindouras. Esta cultura precisa urgentemente ser implantada, permitindo alguma compensação aos que preservam a riqueza da Amazônia, que com certeza está sendo socializada com toda a humanidade.

    Edson Silva, Auditor para a implantação do processo de Qualidade Ambiental.

    [email protected]

  • Vitória-régia

    A maior flor do mundo, a vitória-régia, também é da Amazônia e chega a medir 2 metros de diâmetro.

  • Amazônia Clássica

    Amazônia Clássica – É uma divisão política e geográfica, que inclui os seis estados num conjunto também conhecido como região norte: Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre, Pará e Amapá. São aquelas unidades com predominância da floresta tipo hiléia.

  • Vitória-Régia

    Havia uma jovem índia que apreciava muito as estrelas e queria se transformar em uma delas. Ela acreditava que, para se tornar estrela, precisava ter contato com a lua.

    Então, um belo dia, caminhou em direção aos picos das colinas. Ao cair da noite, a lua surgiu com todo o seu esplendor, acompanhada de estrelas radiantes. A jovem índia, buscando tocar a lua, que refletida no lago naquele momento, se desequilibrou, caiu e desapareceu nas águas.

    A lua, ao ver o que acontecera, ficou com pena da bonita jovem e resolveu, então, transformá-la em uma flor – Vitória-Régia, a estrela das águas, tão linda quanto as estrelas do céu e com um perfume inconfundível.

  • Boi-bumbá

    Boi-bumbá, tradição celebrada, inicialmente, como uma festa no meio da rua, atualmente, reúne uma multidão de pessoas, num bumbódromo, para assistir à disputa entre os dois bois, representados pelos grupos Vermelho, ou Garantido, e Azul, ou Caprichoso. Na década de 60 o boi-bumbá foi para as quadras, criando então o Festival Folclórico. Em 1985, montou-se um bumbódromo de madeira, com arquibancadas, camarotes e uma arena acimentada para a apresentação dos grupos. Em 1988, foi inaugurada a versão em alvenaria, definitiva. A festa, realizada todos os anos no mês de junho, começou quando, em 1912, a comunidade passou a levar o boizinho de pano de Lindolfo Monteverde, chamado de Garantido, para brincar no quintal de moradores ilustres. Os bois-bumbás dançam em círculo ao som das toadas e o toque das palminhas ao ritmo cateretê, carimbó e marcha. As torcidas completam o show, que é uma mistura de teatro com um rico desfile. Quando acontece a Festa de Parintins, em junho, a pacata cidade que vive da pesca e da agricultura se mobiliza. As cores azul e vermelho, dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, dominam todos os lugares.

  • Amazônida

    Amazônida – Aquele que tem consciência da especificidade regional e da condição colonial da Amazônia. Ou seja, é um cidadão consciente de sua posição no tempo e no espaço regional.