Autor: daniel

  • Cacique diz que vai trabalhar em parceria

    Cacoal/RO – O cacique Pio Cinta Larga, que assumiu na última quinta-feira a administração regional da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Cacoal, disse ontem (25) que vai montar sua equipe de trabalho a partir da próxima segunda-feira. Ele informou que ainda não nomeou ninguém porque está aguardando a presença do novo coordenador do Grupo da Força Tarefa Cinta Larga, João Batista Maglia, que permaneceu durante o dia de ontem na base da Polícia Federal, em Pimenta Bueno. “Como trabalharemos em parceria, prefiro esperar o João Batista para formarmos a equipe juntos”, disse Pio.

    Pio disse que os líderes indígenas de outras etnias também serão ouvidos na hora das decisões. Além de cuidar das áreas administrativa e financeira da administração regional da Funai, o cacique tem a atribuição de administrar qualquer situação ocorrida nas aldeias das etnias Cinta Larga, Suruí, Kwaza, Apurinã e Mequéns, localizadas nos municípios de Cacoal, Pimenta Bueno e Espigão do Oeste.

    Quanto aos 16 funcionários exonerados pelo presidente da Funai, Márcio Augusto Freitas de Meira, o cacique disse que vai conversar com seus parentes para depois decidir se vai reaproveitá-los em novas funções. A maioria dos exonerados ocupava cargos de chefia de postos indígenas nas aldeias e os demais trabalhavam nos setores administrativo e financeiro da Funai. Sobre os motivos das demissões, o cacique disse apenas que foi pego de surpresa pelas exonerações.

    Apesar de ser o primeiro índio a ocupar o cargo em Rondônia e o segundo no Brasil, Pio disse que está preparado para suas novas funções. Antes de assumir a Funai, o cacique era um dos principais chefes do garimpo de diamantes da Reserva Roosevelt, localizado no município de Espigão do Oeste.

    Questionado sobre sua vida pessoal, o cacique disse que tem apenas uma esposa e seis ou sete filhos. Sobre sua idade ele afirmou que “a única coisa que não sei da minha vida é quantos anos tenho”.

  • Cacique assume administração da Funai

    Cacoal/RO – O cacique Pio Cinta Larga, um dos principais líderes da Reserva Roosevelt, é o novo administrador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Cacoal. Ele assume o cargo interinamente, em substituição ao antigo administrador, Trajano Fonseca Azevedo, exonerado ontem (23) pelo presidente nacional da Funai, Marcio Augusto Freitas de Meira. Além de Trajano foram exonerados outros 15 funcionários que exerciam cargos de confiança. É a primeira vez em Rondônia que um indígena assume a função.

    Os 16 funcionários foram exonerados a pedido de lideranças indígenas da região. Segundo o presidente, todos deverão ser reaproveitados pelo novo administrador. Ele não quis detalhar os motivos das demissões. Disse apenas que trata-se de decisões políticas.

    O presidente, que desde terça-feira vinha mantendo reuniões na região, com lideranças das etnias Cinta Larga, Suruí, Apurinã e Mequéns, disse que nomeou o indígena no cargo a pedido dos índios. Segundo Marcio Meira, o cacique será assessorado por toda a equipe da Funai. “É um ato legítimo e um momento importante para a população indígena”, disse.

    Ainda ontem o presidente nomeou também o novo coordenador do Grupo da Força Tarefa Cinta Larga da Reserva Roosevelt, João Batista Maglia, que trabalhava na Funai em Brasília. Quanto a situação do garimpo de diamantes, o presidente disse que a garimpagem está paralisada e que enquanto não houver uma legislação favorável, a atividade será ilegal.

    Com a reativação do Grupo de Força Tarefa, o presidente acredita que os índios Cinta Larga terão maior apoio para administrar a situação na reserva. “Estive no garimpo e a situação na área hoje é tranqüila”, disse.

    Índios serão ouvidos

    O cacique José Itabira Suruí, líder geral do Povo Suruí, disse que Pio Cinta Larga teve muita coragem em assumir o cargo de administrador da Funai e que terá que ter muita força e fé em Deus para conseguir fazer um bom trabalho. “É uma tarefa muito difícil para nós índios”, definiu.

    Segundo Itabira, a principal estratégia de Pio deverá ser o diálogo com as demais etnias. “Ele tem que conversar muito com os parentes. Espero que ele consiga o que o branco não conseguiu”, disse.

    Questionado sobre suas metas, Pio disse que primeiro vai montar uma equipe de confiança e depois vai analisar a situação da Funai para depois por seus projetos em prática. Ele prometeu também manter constante diálogo com os índios de todas as etnias.

  • Cintas Larga libertam reféns

    Os índios Cintas-Largas libertaram ontem, no fim da tarde, os cinco reféns detidos desde sábado na Terra Indígena Roosevelt, em Rondônia. O comissário das Nações Unidas (ONU) David Martins Castro e o procurador da República Reginaldo Pereira, que estavam entre as pessoas detidas, seguiram de helicóptero até a cidade de Cacoal, no interior de Rondônia. Outros dois funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) foram transportados de carro.

    Desde o início da tarde, o presidente da Funai, Márcio Meira, negociava a liberação dos reféns com os Cintas-Largas. Em troca, os índios pediam o fim da exploração ilegal de diamantes na Terra Indígena Roosvelt – uma das quatro povoadas pela etnia – e projetos de desenvolvimento sustentável para fornecer alternativas de sobrevivência da população indígena.

    Após decidirem manter cinco pessoas detidas na Reserva Indígena Roosevelt, no leste de Rondônia, índios da etnia Cinta-Larga divulgaram uma carta na qual afirmam que a região “tornou-se um barril de pólvora” desde a descoberta de uma jazida de diamante no local há sete anos. No texto, os índios afirmam não querer a liberação de garimpo em terras indígenas e exigiam políticas de desenvolvimento sustentável para libertar os reféns.

  • As cobaias do Garimpo Roosevelt

    As cobaias do Garimpo Roosevelt

    As cobaias do Garimpo Roosevelt

    Espigão do Oeste/RO – Desde o início da semana o movimento nas ruas de Espigão do Oeste tem aumentado com o grande número de garimpeiros que chegam à cidade fugindo do garimpo Roosevelt. Em pequenos grupos os mineradores chegam à cidade, trazendo nas costas o que sobrou de suas “traias”.

    Após as denúncias veiculadas na mídia, dando conta da continuidade dos trabalhos dentro do garimpo, a Policia Federal aumentou o cerco em torno da reserva, ficando quase impossível à entrada de equipamentos e provisões para os homens continuarem o trabalho nas escavações.

    Com isso muitos garimpeiros estão abandonando a área, por não ter mais condições de manter as equipes trabalhando. Esse reflexo que vem se abatendo sobre o garimpo da Reserva Roosevelt está repercutindo na desistência de muitos grupos de garimpeiros tidos como “Manso”, que buscavam as pedras com o uso de pares de máquina, em um trabalho em parceria com os índios.

    Segundo alguns dos mineradores, as dificuldades começaram a surgir com o racionamento dentro da “Fofoca” e o alto preço dos combustíveis no barranco. A maioria não tem mais como manter os trabalhos. Os donos de máquinas dispensam os “Rodados”, que sem ter o que fazer no garimpo, saem de magrudada para fugir da fiscalização da Polícia Federal e retornar a Espigão do Oeste.

    Como a maioria não tem uma ocupação fixa, passam o dia perambulando pelas ruas da cidade em busca de sabes se lá o que. Pedro Simão, o Coxipó, é só um entre as dezenas de retirantes do garimpo, meio que desconfiado arriscou falar de sua passagem pelo Garimpo Roosevelt: “Esse garimpo só deu para minha cabeça. Com dois meses lá dentro não consegui quase nada, o pouco que arrumei gastei para me manter”, disse.

    Os gastos com mantimentos e combustível e a porcentagem dos índios, praticamente consume toda a produção de pedras dos donos de máquinas, por isso a maioria está desistindo do garimpo, esperando por dias melhores. “O garimpo hoje só tá bom para os compradores de pedras. Eles não correm riscos e pagam o que querem pelas pedras, além do mais tá acontecendo muito rolo lá dentro, hoje não compensa mais enfrentar essa parada”, afirmou o garimpeiro.

    Com esse aumento repentino da população, novamente o município de Espigão do Oeste começa a vivenciar o lado negativo do garimpo. Os postos de atendimento médico do município já sentem o reflexo dessa debandada dos garimpeiros. Todos os dias vários enfermos dão entrada na rede municipal de saúde, sem contar na insegurança da população, que se vê ameaçada com a presença de tantos forasteiros perambulando pelas ruas sem uma ocupação.

  • Sucata de garimpo se acumula na base da PF

    Sucata de garimpo se acumula na base da PF

    Sucata de garimpo se acumula na base da PF

    Espigão do Oeste/RO – Com as várias operações que foram realizadas pela Polícia Federal no interior do Garimpo da Reserva Roosevelt, desde o ano de 2001, toneladas de máquinas e equipamentos foram retirados do local. Entre eles figuram muitas máquinas pesadas como tratores sobre esteiras, PCs, tratores de pneus, Toyotas Bandeirantes, caminhões, camionetes e outros veículos menores.

    A maior parte deste material acabou sendo liberada pela justiça através de cautela, para atender as entidades públicas como prefeitura, câmara, Policia Militar, Policia Civil e algumas outras empresas. O restante do material retirado das grotas, tais como resumidoras, motores estacionários, bombas, maracás, dragas, mangueiras e tambores, na sua maior parte se encontra retido no pátio da Base do Bradesco, destacamento de controle da Policia Federal, localizado nas proximidades do garimpo.

    O delegado da Polícia Federal responsável pela fiscalização da área do Roosevelt, Rodrigo Carvalho informou que é muito grande a quantidade de equipamentos presos na Base do Bradesco. Segundo ele, esses equipamentos foram se acumulando após as várias operações realizadas pela Policia Federal dentro do garimpo. “Todo esse equipamento apreendido está acondicionado no pátio da base à espera de uma definição por parte da justiça, uma vez que a maioria é peça de processos. Enquanto a situação não se define, a maior parte do material continua se deteriorando com a ação do tempo, expostos no pátio”, disse.

    Das quatro bases que a Policia Federal mantém no local, a base do Bradesco é o ponto de fiscalização mais próximo ao garimpo. Isso explica a grande quantidade de equipamentos apreendidos. “A base do Bradesco é um ponto estratégico para a coibição da entrada dos garimpeiros. Deste local até o garimpo são menos de 40 quilometros, sem contar que este trecho é a principal entrada para a aldeia central do Roosevelt, por isso o movimento no local é muito grande”, explicou o delegado.

  • A longa agonia do Rio Palmeira

    A longa agonia do Rio Palmeira

    A longa agonia do Rio Palmeira

    Espigão do Oeste/RO – Desde o inicio da colonização desta terra, quando os primeiros mateiros se embrenharam nas picadas, saindo de Pimenta Bueno para as terras da Colonizadora Itaporanga, encontravam nas margens daquele rio de águas caudalosas e límpida uma referencia para o descanso.

    A picada foi tomando forma de estrada. A pinguela de troncos feita pelos pioneiros se transformou em ponte de madeira. Com o tempo veio o concreto e o rio continuou ali imponente, suprindo o povoado em todas as suas dependências. Por muito tempo o rio Palmeira foi à única opção de lazer das famílias que ali vinham para banhar em suas águas ou para pescar.

    Em ritmo acelerado o pequeno povoado foi crescendo, se tornando uma progressista cidadezinha. E para atender as necessidades primordiais dessa massa humana novamente surge ele para cumprir o seu papel social. Bombas e canos passaram a sugar suas águas e levar até as residências para jorrar nas torneiras. Mas o tempo e o descaso apoiado na desculpa do desenvolvimento desenfreado, foram, com o passar dos anos, cobrando um preço muito alto do velho rio.

    As matas ciliares que antes protegiam os seus barrancos foram caindo, dando lugar às pastagens. Seus afluentes, pequenas veias que irrigavam o seu leito, passaram a ser represados para dar de beber aos crescentes rebanhos que começaram a se formar no município. Suas margens passaram a sofrer a ação do homem com toda sorte de ataques. Se não bastasse isso, os agrotóxicos usados sem controle pelos proprietários para combater as pragas nas pastagens chegaram até as suas águas, causando um mal irreversível.

    Seus peixes tão abundantes em épocas remotas foram desaparecendo junto com toda a vida animal, quebrando assim o elo que sustentava todo o seu ecossistema. Sem ter como se defender de tantos crimes ambientais, o velho e imponente rio foi se entregando, perdendo a sua majestade. Suas águas antes limpas e de correntezas revoltas foram se amarelando, diminuindo as forças, se dobrando vencidas até se transformarem em um manso regato.

    Hoje com tristeza percebemos que três décadas após as primeiras pessoas se servirem de suas águas, o rio Palmeiras não é mais nem a sombra do que foi, porém mesmo agonizando, continua a cumprir o seu destino, do rio largo de outrora, hoje é apenas um filete de água que teima em serpentear pelo seu leito arenoso entre os seixos e os troncos de madeiras expostos ao sol, como um trágico monumento, tristes lembranças de sua imponência de outros tempos.

    Mesmo diminuído pela ação predadora do homem durante tanto tempo, o velho rio ainda tem forças para doar o que sobrou de suas águas para continuar a matar a sede de seu povo, mas quando não restar mais nenhuma poça de água para ser bombeada para as torneiras das casas, onde o município irá encontrar outro substituto para o exaurido rio. Talvez quando a população acordar para tentar fazer alguma coisa pelo rio será muito tarde. As novas gerações herdarão apenas um grande sulco, rasgando a terra, onde as pedras e a lama serão as únicas lembranças de que um dia ali existiu um rio chamado Palmeira.

    Autor – Luizinho Carvalho

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  • Garimpeiros pagam valores acima do mercado no Roosevelt

    Garimpeiros pagam valores acima do mercado no Roosevelt

    Garimpeiros pagam valores acima do mercado no Roosevelt

    Espigão do Oeste/RO – Apesar da insistência das autoridades em afirmar que a situação na reserva Roosevelt está sob controle e que o número de garimpeiros não passa de algumas dezenas, a realidade dentro da reserva é bem outra. Novos fatos dão conta de que uma situação inusitada começa a tomar grandes proporções dentro da reserva. É do conhecimento de todos que centenas de garimpeiros mantem o trabalho nas grotas, revirando o cascalho cada vez mais fundo na busca das pedras brilhantes.

    Os homens, na sua maioria rudes, trabalham seminus e enlameados, se amontoando nas grotas com pás, picaretas e jatos de água, removendo a terra na busca do diamante. Essa louca corrida atrás da fortuna viu a sua situação começar a se complicar de uns três meses para cá, com o cerco cada vez maior da Policia Federal, que está coibindo a entrada de combustível, alimentos e bebidas para dentro da reserva Roosevelt.

    A interrupção da chegada desses itens de vital importância para a manutenção, tanto de máquinas como de homens no trabalho dentro das grotas pelos meios legais, tem causado um grande prejuízo para os garimpeiros com a explosão dos preços agora cobrado pelos varadores. Com esse bloqueio das autoridades os preços perderam o controle dentro do Baixão, a ponto de produtos como o tambor de 200 litros de óleo Diesel valer de 1200 a 1600 reais, uma Coca Cola de 2 litros é comercializada a 10 reais, caixa de bombom garoto por 15, a gasolina não sai por menos de 10 reais, o mesmo preço é cobrado por um quilo de frango.

    Com esse desequilíbrio nos preços dos produtos de primeira necessidade e a falta da “Pedra Boa” que sumiu das resumidoras, os garimpeiros estão pagando para trabalhar nas grotas. Já existem comentários de vários entreveros entre membros de equipe causados pela atual situação. Com o gasto muito alto para manter um par de máquinas funcionando, os proprietários estão se endividando cada vez mais. Existem casos em que esses aventureiros estão há mais de 6 meses no local, sem ter como retornar para a cidade devido as dividas. Outro problema que vem causando apreensão, principalmente nas lideranças indigenas é o fato da discórdia entre os trabalhadores brancos que na maioria das vezes trabalham no regime de porcentagem com os donos de máquinas e como as “Pescadas” não estão dando nem para cobrir os gastos, estão sem receber as suas parcelas pelo trabalho.

    Barril de pólvora

    Existem ocasiões onde conseguem alguma pedra de valor e logo apostam em investir tudo para tentar recuperar o prejuízo, daí acontece de não dar em nada e o prejuízo vai aumentando, assim como a insatisfação dos chamados “Rodados” que sobrevivem da sua força de trabalho. Vários desses donos de máquinas optaram por abandonar o equipamento até as coisas melhorarem, deixando centenas de escavadores desempregados dentro das fofocas. Muitos desses estão sobrevivendo de comer de favor em algum barraco até surgir alguma vaga de trabalho.

    A prostituição é outro grave problema que tomou proporções assustadoras dentro do garimpo. Vários barracos têm de 4 a 5 mulheres que entraram com a desculpa de cozinhar para a turma, mas que na verdade movimentam o rentável negócio da prostituição. As lideranças indígenas tentam não se envolver nesses problemas, mas como afirmou o cacique Pamaré, é muito difícil controlar todo mundo. Por isso não é prematuro afirmar que o garimpo do “Baixão” se transformou em um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. A bebida, as drogas e a prostituição aliadas ao descontentamento dos garimpeiros com os donos de máquinas são os componentes necessários que poderão deflagrar um novo derramamento de sangue dentro do Lage e não duvidem se novamente os Cinta Larga forem responsabilizados pelas mortes que certamente irão ocorrer.

  • Cacique usa garimpo de diamantes para desenvolver aldeia

    Cacique usa garimpo de diamantes para desenvolver aldeia

    Cacique usa garimpo de diamantes para desenvolver aldeia

    Aldeia Tenente Marques/Espigão do Oeste/RO – Encravada no extremo Sul do Estado de Rondônia, na divisa com o Mato Grosso, está localizada a Reserva Roosevelt, terra “Sagrada dos Índios Cinta Larga”. A reserva é um imenso território verde dividido em quatro áreas: Área indígena Aripuanã, Parque Aripuanã, área indígena Roosevelt e área indígena Serra Morena.

    Com a extensão de 2,7 milhões de hectares de pura floresta Amazônica, esta área tem o tamanho de paises como à Bélgica ou 20 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Essa imensidão verde no chamado “Paralelo 11” é onde está localizada a nação dos últimos descendente dos Tupis. A tribo Cinta Larga teve suas terras demarcadas no inicio dos anos 70, porém o Brasil só ouviu falar delas pela primeira vez após a sua invasão por milhares de mineradores. Invasão essa que resultou no massacre de 29 garimpeiros, ocorrido em abril de 2004, atraindo para a região as atenções de todo o planeta.

    Desde a demarcação de suas terras, os 1.394 índios que formam a nação Cinta Larga, até hoje não foram incluídos em nenhum programa de ajuda do Governo Federal. Abandonados ao longo desse período pela ausência do poder público, os índios Cinta Larga se viram forçados a fazerem alianças com organizações de idoneidade muitas vezes duvidosas, para obter dinheiro e trazer as melhorias para a tribo.

    Na década de 80, eram os madeireiros que invadiam a reserva na extração clandestina do mogno e da cerejeira. No fim da década de 90 juntaram-se aos garimpeiros e contrabandistas de diamantes que há muito se interessam pela região. Região essa que esconde aquilo que pode ser uma das maiores jazidas de diamante do mundo.

    Riqueza incalculável

    A riqueza que dorme no subsolo da Roosevelt é incalculável. As terras da Reserva Roosevelt abrigam várias rochas de kimberlitos, que ao brotarem do subsolo, trazem os diamantes das profundezas da terra para perto da superfície. Para entender o significado dessa descoberta, basta dizer que as maiores jazidas de diamante do mundo têm, cada uma, um único kimberlito.

    No período de 2003 a 2004, milhares de garimpeiros, despertados pela cobiça dessas imensas riquezas transformaram a área em terra de ninguém. A corrupção na região se tornou endêmica, envolvendo garimpeiros, policiais e contrabandistas, que ora se associavam na extração ilegal de diamantes, ora brigavam entre si.

    Hoje, o garimpo está deserto, mas se houver uma brecha, em 24 horas pode ser invadido por milhares de “Garimpeiros” e “Rodados”, que só esperam a oportunidade certa para participar da “Varação”. Uma vez dentro da reserva invadem os baixões e grotas agindo como em um assalto programado. Ficam ali algumas semanas, retiram milhões em pedras e vão embora, deixando atrás de si um rastro de destruição e degradação ambiental com a devastação ecológica da flora e da fauna em torno do garimpo, sem falar na poluição e assoreamento dos rios.

    Essa corrida desenfreada na extração de diamantes atraiu para a região traficantes, contrabandistas e a prostituição, gerando uma situação de tensão e violência às quais os índios não estavam acostumados e que atualmente não querem mais se submeter. Com essa riqueza ao alcance das mãos e tantos interesses em jogo os fatos são distorcidos. As lideranças indígenas, aos olhos da sociedade, passaram a ser os bandidos da história, mas, na realidade, pela sua ingenuidade e a falta de conhecimento da malandragem do branco, são ludibriados pelos receptadores, pelos servidores públicos corruptos e donos de máquinas.

    Agem de acordo com sua cultura, embora pareçam estar envolvidos com os brancos, mas a realidade é bem outra. Após os grandes levantes ocorridos no interior do garimpo durante os últimos anos, os índios ao que parece aprenderam com o revés sofrido. As atividades no garimpo diminuíram, os índios passaram a se organizar com o surgimento de associações e cooperativas para melhor administrar suas terras e riquezas.

    Construção de hidrelétrica

    Após anos de contato com o chamado mundo dos brancos, novas lideranças começam a surgir entre os Cinta Larga. Entre essas lideranças o maior destaque é João Bravo, líder emergente da comunidade Tenente Marques. João Bravo é o responsável pelas grandes mudanças ocorridas na sua aldeia. Em 2001 o líder tribal deu inicio a construção de uma usina hidrelétrica na bifurcação do Rio Roosevelt, com capacidade para gerar 20 CV que fornece energia elétrica para toda a aldeia que fica a dois kilometros do local.

    Todo o projeto da construção da usina, mais o canal de 110 metros em concreto que leva a água até a casa de máquinas onde fica a unidade geradora de energia. “Todo esse trabalho foi feito pela comunidade, não teve ajuda nenhuma do governo”, afirmou João Bravo, enquanto apontava para o longo canal de concreto. Ao caminhar pela Aldeia Tenente Marques as margens do rio, o visitante pode comprovar as inúmeras inovações que foram introduzidas pelo líder indígena.

    Novas casas

    As antigas choupanas de pau a pique e barro batido cobertas de sapé que formavam a aldeia, deram lugar a novas casas de madeira cobertas com telhas e pintadas na cor verde e amarela. “Igual às cores da bandeira do Brasil”, afirma orgulhoso João Bravo. São novidades que estão mudando o ritmo de vida dos moradores. Nessa verdadeira evolução a comunidade ganhou três pistas de pouso para pequenas aeronaves e desfruta de boas estradas, interligando a aldeia às demais comunidade. Todo esse trabalho foi executado com a utilização de tratores e caminhões caçambas da própria comunidade indígena.

    Recentemente o Cacique João Bravo implantou o projeto de piscicultura na aldeia, com a construção de tanques onde foram colocados 100 mil alevinos. Esse projeto pioneiro na área indígena tem como principal objetivo atender ao consumo da população e também a comercialização da produção excedente.

    A pecuária também já entrou forte nas terras da aldeia. Funcionários foram contratados para erguer milhares de metros de cerca nas pastagens de braquiúra com a tecnologia da eletrificação. Currais modernos foram construídos para facilitar o manejo dos rebanhos que é feito por vaqueiros não índios contratados pela aldeia.

    Saúde e Educação

    Na saúde o líder da tribo investiu na aquisição de ambulância traçada e medicamentos para o postinho. Agentes de saúde contratados fazem o acompanhamento diário da população local, principalmente das crianças.

    Segundo levantamentos feitos pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a taxa de mortalidade infantil na reserva é zero. Na educação, João Bravo brigou até com o Governo do Estado para viabilizar a construção de uma nova escola para a comunidade. “O governador não queria fazer a escola. Eu mandei prender carro da Seduc na aldeia, só depois que começou a construção da escola eu liberei carro”, comentou o chefe da aldeia.

    Depois dessa suposta briga pela construção da nova escola, uma parceria foi firmada com o Governo do Estado, que através do Setor de Educação Indígena da Seduc equiparou as escolas na tribo. Professores indígenas foram graduados e hoje são capacitados para atuar na rede de ensino, atendendo em sala de aula toda a clientela da aldeia em idade escolar. Com esse trabalho dirigido pelos próprios professores da comunidade, conseguem manter suas tradições em harmonia com a modernidade.

    Mesmo sendo conhecedor da imensa riqueza em forma de diamantes que repousa sobre os seus pés, o líder João Bravo, que é conhecido por todos como “Um homem muito sistemático”, utiliza essa riqueza e a liderança que exerce, não em beneficio próprio, mas em projetos de bem estar comum, que geram o desenvolvimento e o conforto para a sua comunidade. “Muitos falam que eu sou rico, mas não verdade tudo aqui não é meu, pertence à comunidade”, defende-se o velho líder.

    Lições a governantes

    A liberação ou não do garimpo da Reserva Roosevelt ainda será tema para longas discussões nos luxuosos gabinetes de Brasilia, mas enquanto a situação não se define, esse emergente líder indígena segue, dando lições a muitos governantes de como se administra os recursos de uma comunidade.

    Hoje a aldeia de João Bravo tem a estrutura de uma verdadeira empresa, gerando emprego a dezenas de funcionários não índios que moram e trabalham na comunidade, executando trabalhos em diferentes setores que mantem em perfeito funcionamento toda a estrutura da aldeia. “Aqui cada um tem a sua ocupação. Quando amanhece cada qual já vai para o serviço, é como em qualquer empresa”, afirmou o vaqueiro Joaquim Calvacante, que trabalha há quase dois anos na aldeia.

    Apesar desse progresso que algumas aldeias têm conseguido, a sombra do garimpo com sua riqueza e seus perigos é uma ameaça constante a essa paz momentânea que a tribo desfruta. Todos na aldeia sabem que para defender suas terras, suas mulheres e crianças contra a invasão dos ambiciosos aventureiros que teimam em rondar suas fronteiras, os índios Cinta Larga hoje contam apenas com a coragem de líderes como João Bravo, que ao longo dos seus 63 anos ainda luta tenazmente por dias melhores para o seu povo.

  • Educação indígena recebe atenção

    Espigão do Oeste/RO – O município é diferenciado dos demais pela sua proximidade com reservas indigenas das etnias Suruis, Cinta Larga e Aporinã. A presença tão próxima da população indígena trouxe ao município uma responsabilidade a mais na manutenção das reservas. Um bom exemplo é na questão da educação indígena, que é feita pela Seduc, através da Representação de Ensino de Espigão do Oeste, que atualmente conta com uma equipe técnica pedagógica só para desenvolver a educação indígena.

    A equipe coordenada pela professora Vera França Taurino realiza todo o acompanhamento pedagógico das escolas indigenas da reserva Cinta Larga. As ações da equipe têm como objetivo prestar apoio técnico durante o planejamento, execução e avaliação das aulas ministradas pelos professores índios e não índios que atuam dentro das aldeias indigenas. Todo o trabalho anual é feito com planejamento antecipado pela equipe técnica que periodicamente visita as escolas dentro da reserva em um trabalho de campo, onde acompanha de perto todo o progresso dos alunos diante das atividades propostas pelos educadores. As lideranças das comunidades indígena Cinta Larga têm participado desse trabalho desenvolvido pela professora Vera França e sua equipe, participando dos encontros pedagógicos e discutindo as prioridades das escolas.

    Hoje a educação indígena desenvolvida nas aldeias é de qualidade. Uma prova disso é a grande freqüência dos alunos durante as aulas.

  • “Meu povo tem o direito de viver em Paz”

    No dia 08 de abril completaram exatos três anos que aconteceu o fatídico confronto na terra dos Cintas Largas que culminaram com a morte de 29 garimpeiros. Durante todos esses anos o fato foi investigado pelas autoridades competentes, mas nunca se preocuparam em dar uma resposta convincente para a opinião pública do que realmente ocorreu na reserva naquele dia.

    Graças a esse silêncio das autoridades o episódio foi, e continua sendo explorado com muito sensacionalismo por toda a mídia do país, causando um grande constrangimento para o povo da Reserva Roosevelt. Durante esse tempo a nação indígena tem convivido com essa culpa, marcados pelo estigma de ser um povo belicoso e dado à violência. Contrariando toda essa pragmática afirmação, as lideranças lutam para reconstruir a vida na aldeia, buscando melhores dias para os seus descendentes. Tentando entender melhor a saga desse povo, visitei a aldeia central do Roosevelt e Capitão Cardoso.

    Durante as conversas com as lideranças mais velhas passei a conhecer a luta enfrentada por esse povo que ao contrário do que dizem, formam uma sociedade patriarcal, com uma convivência muito alegre e festiva, gostam de receber suas visitas com grandes festas onde homens, mulheres e crianças dançam e riem com a maior naturalidade. Os problemas nas aldeias surgiram com a descoberta do garimpo, daí por diante a situação tem se tornado em parte muito mais difícil, porque se por um lado os índios têm dificuldades para trabalharem suas terras e sustentar seu povo, por outro são excluídos pela sociedade pelo fato da maioria ser analfabeto, não ter cultura e ter costumes diferentes dos brancos.

    Na aldeia central do Roosevelt a liderança é do Cacique João Pamaré Cinta Larga. Com boa instrução, João Pamaré não tem dificuldades para se expressar com seus interlocutores. “Quando tivemos contato com o branco achamos que seríamos aceitos em seu meio, mas com a descoberta do garimpo tentamos trabalhar em comum acordo com eles, não foi possível, verificamos que enquanto trabalhávamos com os brancos, houve uma desestruturação das comunidades e uma enorme evasão de parentes para a cidade, daí surgiram todas as coisas ruins.

    João Pamaré Cinta Larga também falou do temor dos mais velhos com a evasão de jovens que vão para cidade. “Nossos jovens começam a conviver com os brancos e logo não querem mais viver como nós, isso é muito ruim para o futuro do povo, precisamos que eles aprendam língua dos brancos, que estudem como os brancos, possam ser doutores, professores, qualquer coisa, mas não esquecendo nossas origens”. O cacique da Aldeia Roosevelt fez questão de mencionar a preocupação das lideranças. “Não queremos que os jovens da aldeia venham a passar pelas mesmas dificuldades que minha geração está enfrentando hoje, nessa convivência com o branco”.

    Durante os dias que passei na aldeia, as conversas com as lideranças mais velhas sempre foram carregadas de desabafos contra a atual situação por que passam os remanescentes da grande Nação Tupi. No dia marcado para voltar à cidade pude conversar com o ex – cacique geral da etnia que visitava a aldeia. Ita Cinta Larga como os demais lideres, criticou o abandono dos índios por parte do governo federal. “Não temos um bom atendimento de saúde, temos grandes dificuldades, pois estamos a centenas de quilômetros da cidade e nosso posto de saúde é de pequena estrutura, não atende as nossas necessidades, se houver alguma emergência não sabemos o que pode acontecer com parente.”

    Sentado sobre um grande tronco caído ao lado da maloca, o líder Ita Cinta Larga também falou dos temores dos índios com a segurança de suas terras. “Outro problema que preocupa é não termos controle dos limites da reserva, muitas vezes descobrimos o branco trabalhando de forma clandestina nas grotas, quando acham “pedra boa” na hora de repartir acabam brigando e muitas vezes matam amigo para ficar com pedra. Quando volta à cidade sem companheiro fala que foi o Cinta Larga que matou, homem branco tem muita malícia e pouca palavra”, reclamou o líder indígena.

    Tive que concordar com o sábio índio diante dos inúmeros casos que temos conhecimento na região, fatos que a mídia explorou muitas vezes sem o devido conhecimento e cautela, denegrindo e desonrando o povo da floresta, fomentando o ódio dos brancos contra os índios. Alterando a voz em alguns momentos o velho líder indígena continuou seu desabafo enquanto cavoucava o chão com um graveto de madeira, “Quero dizer que nós Cinta Larga não invadimos os comércios, as residências, as terras, não ameaçamos os filhos do branco e muito menos a vida do branco”. “Nós, Cinta Larga só querer do governo brasileiro a garantia da nossa terra”.

    Em dado momento o velho líder apanha com o graveto uma enorme formiga preta que caminhava no chão de terra batida. Ita Cinta Larga levanta o inseto que agarrado ao galho fica imóvel na sua extremidade. O velho índio, considerado um analfabeto pelo fato de não ter cursado uma escola dos brancos, olha fixamente para o inseto e murmura uma entrecortada frase na sua língua materna: “Mbaveej máá nzyja atawaap ta mene pira”!. Rapidamente olhei para o professor Anemã Cinta Larga ao meu lado e ele entendeu o meu gesto. Baixou a cabeça e respeitosamente me traduziu o triste lamento do velho cacique. “Parente muito triste com tudo que aconteceu com a gente”! Parente fala! “Meu povo tem o direito de viver paz”.

    Após retornar das aldeias passei a questionar o posicionamento muitas vezes irresponsável da imprensa, tanto local como nacional pelo modo como vem tratando o povo Cinta Larga. Fazendo um mau uso dos meios de comunicação, expondo esse povo a execração, imputando – lhe toda a culpa por tudo de mal que acontece na região. Muito desses “Profissionais da Mídia” nunca sequer estiveram próximo ao garimpo, mas se baseiam em boatos carregados de exageros ou em alguns telefonemas para escrever suas matérias, com essa negligencia deliberadamente estão incitando a violência e o ódio dos brancos contra os povos da floresta. Hoje tenho plena certeza que o maior desejo dos 1362 índios que formam a Nação Cinta Larga, é ter a garantia de viver em paz em suas terras. Somente isso!

    Luizinho Carvalho é jornalista

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